“Eu sinto raiva. Tem alguns médicos que para eles é só mais um, é mais uma mãe, é mais um bebê. Mas para a gente é um momento único, e a gente quer que seja especial. Então, para mim foi um momento muito doloroso, eu queria que sumisse logo”. “Me senti um pedaço de carne, sem vida, sem dignidade sobre uma maca”. Estes são relatos de duas mulheres negras que tiveram seus filhos em maternidades públicas de Salvador. O racismo atravessa um dos momentos mais intensos e vulneráveis da vida de uma mulher.
Mulheres negras são submetidas a situações de humilhação, negligência, discriminação e perda de autonomia durante o parto. Esse é o cenário revelado pelo estudo “Racismo obstétrico, um debate em construção no Brasil: percepções de mulheres negras sobre a violência obstétrica”, publicado em 2024 na revista Ciência & Saúde Coletiva.
A pesquisa, realizada por sete pesquisadoras da Escola de Enfermagem da Universidade Federal da Bahia (UFBA), entrevistou 25 mulheres, com idades entre 16 e 34 anos, atendidas em uma maternidade pública de Salvador. Todas se declararam negras. Entre elas, 60% atuavam em atividades informais ou não remuneradas de cuidado ou trabalho doméstico, como dona de casa, babá ou lavradora. 80% tinham até o ensino fundamental ou médio.
As pesquisadoras presenciaram comportamentos preconceituosos contra pacientes que utilizavam tranças sintéticas e dreadlocks..
