A ressaca dos afetos
É do poeta Carpinejar o apelo: “Não troque uma amizade por um santinho”. E justifica: “A eleição foi absolutamente traumática para os afetos. Há uma ressaca que atinge a todos, um fosso que separa vencedores e derrotados. Milhões de pessoas perderam suas amizades por ideologia”.
Um leitor escreveu, consternado: ‘O meu amigo de infância me trocou por um santinho. Ele me trocou por alguém que nunca apertou a mão, olhou nos olhos, e nunca me viu chorar”.
É triste mas é verdade: milhões de pessoas afundaram na solidão dos laços por defender seus políticos de estimação.
Milhões de pessoas deixaram de falar com quem pensa de modo distinto. Desligaram o telefone na cara. Bloquearam o contato. Discutiram aos berros. Ofenderam com palavras sujas e inomináveis. Vazaram segredos, pisaram nos pontos fracos.
A ressaca dos afetos...2
Foram milhões de brasileiros que entenderam a alegria do outro como chacota, entenderam a raiva do outro como desfeita. Não houve comunicação possível num país monotemático, cindido entre dois extremos com razões passionais.
Gente que até então se amava, se respeitava, se admirava, apesar das divergências que sempre existiram, decidiu romper a intimidade.
Padrinhos de casamento, pais, filhos, irmãos, companhias unha e carne, caíram no feitiço diabólico das urnas e se tornaram subitamente estranhos e hostis, simplesmente porque seus números não coincidiam nos adesivos de campanha.
