Sem entender o significado da cena, vi uma tropa do Exército, munida de tanques, cercar o Palácio do Campo das Princesas, no Recife, para depor e prender o governador Miguel Arraes na tarde de 1 de abril de 1964, o Dia da Mentira. Só que não era simulação de um golpe, era um golpe de verdade que suprimiu a democracia por 21 anos a pretexto de defendê-la do comunismo. Eu tinha apenas 15 anos.
Quatro anos depois, vi 300 soldados da Força Pública de São Paulo prenderem pouco mais de 800 jovens reunidos em um sítio da cidade de Ibiúna durante o XXX Congresso da proscrita União Nacional dos Estudantes (UNE). Eu estava entre eles na condição de aluno do curso de jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco e de ex-repórter da sucursal do “Jornal do Brasil”.
Como repórter da revista “Manchete”, vi o líder comunista Gregório Bezerra ser libertado da Casa de Detenção do Recife no dia 6 de setembro de 1969 para juntar-se ao contingente de 15 presos políticos trocados pelo embaixador norte-americano sequestrado no Rio de Janeiro por organizações da esquerda armada. Naquele mesmo dia fui preso, e o embaixador solto em seguida.
Vi preso em 1980 o metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva, líder de greves operárias na região do ABC paulista. Ele foi mantido em uma das salas do DOPS paulista onde, 13 anos antes, eu fora interrogado e fichado como subversivo. Escrevi sobre a prisão de Lula como editor assistente de política da revista “Veja”.
