13 de outubro de 1806. Em Jena, ocupada pelos exércitos bonapartistas, um professor de filosofia, Georg Wilhelm Friedrich Hegel, viu passar o Imperador Napoleão Bonaparte. A posteridade condensava a cena na célebre expressão "o espírito do tempo a cavalo". Hegel não viu um homem. Viu o espírito do tempo, o Zeitgeist, passar diante de seus olhos.
Beethoven também soube enxergar o seu tempo. A Terceira Sinfonia, composta entre 1803 e 1804, nascera com o nome de Bonaparte. O compositor o admirava como encarnação do ideal republicano.
Quando soube que Napoleão se havia proclamado imperador, decepcionou-se e gritou: "Então ele também não passará de um homem comum. Agora ele pisará os direitos do homem para satisfazer sua ambição; agora ele se colocará acima de todos e se tornará um tirano". E tirou o nome Bonaparte da sinfonia.
Duas maneiras de enxergar o mesmo espírito do tempo. Entre as duas está uma importante lição: o espírito do tempo é maior que qualquer pessoa. Ele não pode ser impedido, aprisionado: chega livre como o vento, como o galope de um cavalo, com um acorde harmônico. O Brasil está vendo chegar o espírito do tempo. Ele se apresenta como mudança na condução da política, mas sua raiz é o resgate de valores.
Valores de pertencimento, a família, a comunidade, os laços de afeto, o cuidado uns com os outros, o acolhimento.
