Nos primeiros níveis do jogo Tetris, tudo é generosidade. As peças geométricas descem devagar pela tela, dando tempo suficiente para girar, pensar e encontrar o encaixe perfeito na parte de baixo. Quando a linha horizontal se completa, desaparece com um som reconfortante. O clássico criado por Alexey Pajitnov pode alimentar uma ilusão psicológica perigosa: a crença confortável de que todo problema virá num formato perfeitamente moldado para caber. Spoiler: Não cabe.
Com uma visão ingênua de Nível 1, alguém poderia ler o anúncio feito pela Polícia Federal em 21 de outubro de 2026, de que entrou em operação do Centro Nacional de Proteção à Criança e ao Adolescente (CNCA) e foi aberto o módulo de cadastramento de plataformas no Sistema NIDUS. Daí pareceria a resolução total de uma crise histórica. No papel, a arquitetura é limpa, linear e autoexecutável: a plataforma tecnológica detecta uma violação a direitos de crianças e adolescentes em seus servidores, notifica o sistema centralizado da PF, o Centro tria a comunicação para a autoridade local competente e a polícia age na ponta. Uma linha reta que promete limpar a tela num único movimento.
A realidade atual da internet, contudo, não opera na facilidade do Nível 1.
A criação do CNCA é, sem dúvida, uma vitória da cidadania e a concretização institucional das obrigações inauguradas pelo ECA Digital (Lei nº 15.211/2025), em vigor desde março de 2026.
