Quando a Amazônia queima, a discussão costuma começar pela procura dos culpados. Identificar e punir quem provoca incêndios criminosos é obrigação do Estado. Mas há outra responsabilidade que precisa entrar nessa conversa: oferecer condições para que o pequeno produtor consiga trabalhar sem depender do fogo.
Como analista de economia e política voltado ao campo, o que me preocupa é a situação das famílias que vivem na terra e continuam enfrentando insegurança sobre elas. Cobrar preservação exige também resolver os problemas que dificultam uma produção mais segura.
A presença de agricultores na Amazônia tem uma história que o país precisa reconhecer. Nos anos 1970, o governo federal promoveu projetos de colonização, abriu caminhos e estimulou a migração de famílias. A expansão agropecuária e a abertura de áreas faziam parte daquele modelo de ocupação.
Isso não significa que toda ocupação atual tenha a mesma origem ou possa ser regularizada. Significa reconhecer que o próprio Estado ajudou a construir uma realidade pela qual continua responsável.
Um estudo de 2022, disponível no Incra e baseado no Censo Agropecuário de 2017, identificou cerca de 273 mil estabelecimentos em glebas públicas federais na Amazônia Legal. Nesse recorte, aproximadamente 161 mil foram classificados como beneficiários efetivos ou potenciais da regularização fundiária.
Esse levantamento não representa toda a região, nem permite dizer que todos esses produtores estejam sem título.
