Há 25 anos, o Brasil parou por falta de energia. O racionamento de 2001 apagou vitrines, encurtou expedientes e obrigou o país a repensar todo o seu sistema elétrico. Um quarto de século depois, o próximo governo vai herdar o problema inverso: um apagão às avessas. Sobra energia limpa, e falta onde guardá-la.
Somente em 2025, os cortes na geração renovável determinados por restrições operativas do sistema, o chamado curtailment, superaram R$ 6 bilhões em desperdício econômico. Ao mesmo tempo, nos períodos de maior demanda, o sistema seguiu acionando termelétricas mais caras e mais poluentes.
Esse paradoxo não é uma falha das energias renováveis. É um sinal de sucesso que o planejamento não acompanhou. Em uma década, a energia solar se tornou a segunda maior fonte da matriz elétrica brasileira, a eólica se consolidou, consumidores passaram a produzir e gerenciar a própria energia e novas cargas intensivas em eletricidade começaram a chegar.
A isso se somam a expansão dos sistemas de armazenamento e a inversão de fluxo nas redes de distribuição, desenhadas para um mundo em que a energia corria em um único sentido. O sistema elétrico mudou de tamanho e de natureza, e o modelo de planejamento precisa evoluir na mesma velocidade, sob pena de transformar uma vantagem competitiva em gargalo.
