Claus vivia uma guerra santa silenciosa quando visitava a família aos domingos. Sua mãe Mirtes era católica, sua irmã Cleide era batista e seu irmão Cláudio frequentava a Assembleia de Deus. Claus era o caçula e o pária. Era filiado ao PSOL e declarava-se ateu (esquecia todos os pedidos a Deus quando as coisas apertavam).
Nos almoços saborosos de domingo, baião de dois, dobradinha e feijoada eram presenças constantes. Deus também. E era evidente que três versões do poderoso embarcavam nas conversas. Jesus Cristo ali, na cabeceira, escutava cada um puxando a sardinha para sua igreja. No passado, eram mais tolerantes e empáticos, mas hoje andavam de mãos dadas quando o assunto era a legalização do aborto, pena de morte, redução da maioridade penal e direitos LGBTQIA+. Não tinha papo.
Acompanhavam a onda registrada pelo Índice de Conservadorismo de Costumes da Ipsos-Ipec. Em uma escala que varia de 0 (totalmente progressista) a 1 (totalmente conservador), o Brasil chegou a 0,680 neste ano, registrando aumento de 0,028 em relação ao índice do ano anterior, de 0,652. Nos bons dias, a família orbitava nessa média.
Meio cientista, meio provocador, Claus pediu para acompanhar cada um deles em seus cultos no fim de semana do primeiro turno. Queria cavar uma curiosidade: afinal, os religiosos influenciam politicamente seus fiéis? O senso comum dizia que o rebanho era manipulado pelos seus pastores, mas era assim mesmo?
Sexta foi à igreja com sua mãe católica. A seriedade dela o tocava. Ela encontrava amigas de décadas nas rezas. Para Claus, era aquela distância, aquele tédio, aquela história violenta e vergonhosa. No sermão, o padre falou de eleições, da importância do voto e da democracia e desejou que cada um votasse de acordo com sua consciência. Na saída, distribuíram uns santinhos, mas sem ligação aparente com a igreja.
