Angélica pensou muito antes de falar e admitiu ter sentido medo. Não é difícil entender por quê. Ela vive num círculo que nunca foi simpático ao PT. Em 2014, o marido, Luciano Huck, votou com uma camiseta da campanha “Muda Brasil” e acompanhou a apuração do segundo turno ao lado de Aécio Neves, com um adesivo do 45 no pulôver, esperando comemorar a vitória contra Dilma Rousseff. Anos depois, ele chegou a planejar uma candidatura pela terceira via, contra Lula e contra Bolsonaro. Por isso, quando uma mulher desse meio grava um vídeo dizendo “não sou petista, não me vejo como de direita nem de esquerda” e, mesmo assim, anuncia voto em Lula, o gesto ultrapassa a militância. É um sinal de onde está o centro.
O vídeo veio acompanhado. Um dia antes, a própria mãe de Luciano Huck, Marta Dora Grostein, também declarou voto no petista. Não parece uma adesão de ocasião. Parece uma família inteira dizendo que, desta vez, não dá para ficar em cima do muro.
As mulheres são maioria e têm a chave da eleição
O primeiro turno terminou com Lula atrás. Flávio Bolsonaro recebeu 56,1 milhões de votos, ou 47,03% dos válidos, e Lula ficou com 53,9 milhões, ou 45,16%. São cerca de 2,2 milhões de votos de diferença. Parece muito até a gente olhar o que ficou de fora: foram 2,3 milhões de votos brancos e 3,7 milhões de nulos, quase 6 milhões de pessoas que foram às urnas e não escolheram ninguém.
E há uma maioria que pode decidir tudo.
