Às vezes acontece. Você lê um livro escrito há 45 anos e ele segue vivo, conversa com as angústias do presente. Estou no começo de “Não Verás País Nenhum”, de Ignácio de Loyola Brandão. O livro é de 1981. Nessa época, a volta dos militares aos quartéis era um sonho alcançável. As “Diretas Já” são de 1983, Sarney assumiu em 1985. O discurso em defesa do meio ambiente engatinhava, apesar da Conferência das Nações Unidas, em Estocolmo, 1972, alertar a necessidade de mudanças no desenvolvimento industrial para o planeta não capitular.
Esse é parte do contexto em que o romance foi escrito e lançado, e é entre essas duas margens que as páginas navegam, o autoritarismo e os impactos de uma catástrofe climática. Nada mais 2026. Poderia dizer que a boa ficção científica têm essa qualidade de prever o futuro. A escritora estadunidense Ursula K. Le Guin discordaria. Para a autora de “Os Despossuídos”, o escritor não profetiza, só usa metáforas para descrever o presente.
Estou no início do livro, me acostumando com Souza, um ex-professor que tenta sobreviver em uma São Paulo do futuro em que a vida é sinônimo de escassez. Sob a rigidez burocrática de um governo chamado “O Esquema” é preciso guardar fichas para beber água e alimentar-se com comida “factícia”, que dilacera o corpo aos poucos. Um furo surge na mão de Souza e desencadeia uma reflexão sobre seu passado e seu sentido de mundo.
Ele recorda que o governo fez uma grande campanha contra as más notícias.
