A língua ferina de Flávio Bolsonaro, no primeiro debate presidencial, não abre espaço para a poesia. Mas o silêncio que adotava diante de perguntas incômodas era como o oposto de um antigo samba que tudo dizia mesmo sem nada falar.
Era o início de 1984, um ano antes da transição para o primeiro governo civil depois de 20 anos da ditadura tão elogiada pelo senador e por seu pai Jair, atualmente preso por tentativa de golpe de Estado.
“Vai passar”, de Chico Buarque, ecoava em todo o país. Vai passar na avenida um samba popular, como dizia a canção. Assim como iria passar o longo período de autoritarismo, cuja memória andava - e anda - desbotada em nossas novas gerações.
“Dormia”, nessa página infeliz da história, “a nossa pátria-mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações”.
Foram muitas transações, como a história já nos ensinou. Na canção a linguagem era simbólica. Mas os grandes negócios estavam ali. Desde depósitos em contas no exterior ao estímulo de grandes projetos internacionais que deixaram rastros de destruição na Amazônia.
Naquele tempo prosperaram ideias como as de plantar capim para gado onde antes havia floresta nativa. Ou plantar eucalipto na terra aberta por desmatamento.
Agora os interesses são mais sofisticados. A economia digital precisa de novos minérios críticos para fabricar aparelhos eletrônicos de última geração. Assim como as forças armadas do mundo buscam matérias-primas para suas mais recentes armas.
