Na costa oeste da América do Norte, quando um grupo de orcas sai atrás de salmão, quem costuma ir à frente é uma fêmea mais velha, que já não se reproduz. Nos anos de escassez, essa liderança fica ainda mais evidente. Os pesquisadores acreditam que ela guarde o que o grupo mais precisa: a memória de onde há comida.
Pela lógica clássica da evolução, a vida depois da fase fértil nem deveria existir. A seleção natural favorece quem se reproduz. Poucas espécies fogem da regra: as orcas, algumas outras baleias dentadas e nós. Segundo o IBGE, a brasileira que chega aos 50 anos, perto da idade da menopausa, ainda tem, em média, mais de 30 anos de vida pela frente. Essa longevidade é anterior à medicina moderna. Entre povos que vivem da caça e da coleta, com pouco ou nenhum acesso a ela, a idade em que mais adultos morrem fica perto dos 70 anos.
Por que a evolução preservaria essa fase? Em 1998, a antropóloga norte-americana Kristen Hawkes defendeu a “hipótese da avó”: avós que ajudam a alimentar os netos permitem que as filhas tenham mais filhos. As baleias dentadas reforçam a ideia. Diversas espécies, como orcas, baleias-piloto, belugas e narvais, entram na menopausa. Quando a natureza chega mais de uma vez à mesma solução (menopausa) para diferentes espécies, é provável que ela tenha utilidade. Em 2024, um estudo na revista Nature mostrou que as fêmeas dessas espécies passaram a viver mais, sem prolongar a fase fértil, e ganharam anos de convivência com filhos e netos.
