Existe um descompasso entre a medição oficial da inflação, que já fecha acima da meta estipulada, e a experiência diária da população brasileira no caixa do supermercado. Se nos relatórios do IPCA a alta dos preços já é motivo de alerta para a política monetária, para o cidadão comum a sensação é de um aperto ainda mais acentuado. Essa discrepância não decorre de falhas metodológicas do IBGE, mas sim da própria natureza dos indicadores agregados, que calculam uma média ponderada de centenas de itens, variando de passagens aéreas e combustíveis a bens eletroeletrônicos, camuflando o peso desproporcional sobre os itens essenciais de subsistência.
Para as famílias de média e baixa renda, a composição do orçamento mensal é amplamente dominada por alimentação, moradia, saúde e transporte. Nesses grupos, a relevância dos gêneros alimentícios e dos serviços básicos é incomparavelmente maior do que no cálculo médio da inflação oficial. Quando alimentos essenciais registram altas expressivas ou permanecem em patamares elevados após choques acumulados, o impacto sobre o bolso do trabalhador é imediato, anulando qualquer alívio pontual que venha pela oscilação de preço em bens discricionários ou serviços consumidos por faixas de maior renda.
Somado a esse descompasso, o fenômeno da ‘reduflação’, quando marcas reduzem a quantidade ou embalagem dos produtos sem diminuir o preço final, altera a percepção do valor real da moeda.
