Numa das minhas primeiras visitas ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), fui imediatamente corrigido pelo professor Niro Higuchi, uma referência nacional em floresta Amazônica, quando usei a expressão “mudanças climáticas”. “Não use o plural. O correto é ‘mudança climática’, ensinou. Minha primeira reação foi pensar que tudo não passava de preciosismo. Um excesso acadêmico, certamente. Mas depois aprendi que esta sutil diferença carrega uma importante mensagem que faz toda a diferença.
O artigo do geoquímico Wallace Broecker, publicado em 1975 na revista Science, intitulado Climatic Change: Are We on the Brink of a Pronounced Global Warming?”, chamou atenção para uma alteração de estado no sistema terrestre. O uso da expressão “climate change” no singular refletia a visão termodinâmica e física de uma transição de um equilíbrio climático para outro.
Wallace Smith Broecker (1931-2019) foi um dos mais influentes geoquímicos e paleoclimatologistas do século XX. Professor da Universidade de Columbia e pesquisador no renomado Lamont-Doherty Earth Observatory, Broecker dedicou sua carreira a desvendar o papel dos oceanos na regulação climática, sendo o pioneiro a conceituar a Circulação Termoalina Global (correntes oceânicas profundas) e a demonstrar que o clima da Terra pode sofrer mudanças abruptas e não lineares.
O artigo de 1975 surgiu em um momento de intenso debate e aparente contradição científica.
"Mudanças climáticas" ou "mudança climática"? Por que optar pelo singular faz diferença
