Texto Victor Bianchin | Design Cristielle Luise | Ilustração Carol D’Avila
No calor úmido da mata amazônica, entre o númen da sombra e o crepitar da vegetação rasteira, um sujeito de sorte pode encontrar, sob os raios de luz que vencem o dossel (a camada superior de copas das árvores), o canto estridente do uirapuru. Cinco notas, com a última se estendendo em um piado mais agudo, como um chamado: ih-uh, ih-uh, ihh.
Na tradição indígena, é uma declaração de amor: um garoto guerreiro teria se apaixonado pela filha do cacique da tribo e, sendo esse um amor proibido, teria pedido a Tupã que o transformasse em pássaro para que pudesse ficar ao lado da moça e alegrá-la com seu canto. Para a banda Nilo Amaro e Seus Cantores de Ébano, em 1963, era um lamento. “Uirapuru, uirapuru / Seresteiro, cantador do meu sertão / Uirapuru, ô, uirapuru / Tens no canto as mágoas do meu coração.”
Mas a flauta natural da Amazônia está se calando. O uirapuru (Cyphorhinus arada) é uma das espécies que estão desaparecendo lentamente da floresta, assim como o vira-folha-de-bico-curto (Sclerurus rufigularis), a choquinha-pintada (Myrmotherula guttata), o vite-vite-uirapuru (Hylophilus ochraceiceps) e dezenas de outras.
À primeira vista, pode parecer obra dos suspeitos de sempre: motosserras, tratores, agrotóxicos, garimpos, incêndios criminosos. Mas é aí que a situação fica estranha: o sumiço dessas aves foi observado em uma área de floresta não apenas protegida, como intacta.
