A política é, por excelência, o território da imprevisibilidade. Experiência, biografia e poder não asseguram a fidelidade das urnas. O primeiro turno de 4 de outubro demonstrou essa verdade: Flávio Bolsonaro terminou à frente de Lula, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16%. A expectativa de vitória de Lula cedeu lugar à busca por recuperação. O senador venceu a etapa, mas a Presidência continua em disputa.
A surpresa recomenda cautela com os diagnósticos feitos depois dos fatos. É fácil apresentar como inevitável aquilo que, na véspera, parecia improvável. O imponderável não surge necessariamente do nada. Pode crescer nas conversas de família, nas filas do supermercado e no silêncio de quem já não encontra no discurso oficial uma tradução de sua vida. Quando aparece na apuração, o desconforto vinha sendo acumulado há tempo.
Lula dispõe de uma trajetória rara entre dirigentes brasileiros. Foi líder sindical, construiu um partido e chegou três vezes à Presidência. Flávio tem experiência parlamentar, mas não comandou um governo. Essa diferença, contudo, não decidiu a primeira rodada. O eleitor também julga quem percebe sua aflição e quem oferece uma perspectiva de mudança. A biografia pode abrir portas; não garante que permaneçam abertas.
Uma leitura possível do resultado é que a oposição conseguiu dar expressão política a parte da insatisfação cotidiana.
