Outro dia, numa dessas conversas aleatórias que começam com a classificação do Flamengo na Libertadores e, quando mal percebemos, caminham por outros trilhos taquicárdicos (sobretudo a uma semana das eleições presidenciais), ouvi uma frase de um amigo:, Mas, siô, isso é assim desde que o mundo é mundo! Desde sempre! Sempre foi assim! Tradição não se discute!
Era a defesa intransigente da família tradicional: pai, mãe e filhos. Sim, no plural, pois um só filho não seria o mandamento esperado de Deus.
O curioso é que poucas expressões parecem encerrar tão rapidamente uma discussão quanto “sempre foi assim”. Diante dela, quase não haveria mais o que argumentar. Se sempre foi, deve haver alguma razão. Se atravessou séculos, deve ser natural. Se nossos avós pensavam assim, talvez os avós deles também pensassem. E, seguindo essa linha imaginária para trás, chegamos a um passado tão distante que aquilo deixa de parecer história e começa a parecer natureza, uma suposta ordem natural das coisas.
A conversa com o amigo tinha percorrido futebol, filhos e casamento antes de chegar às concepções de família. E só chegou a esse ponto porque, em dado momento, estávamos falando sobre um casal homoafetivo que ia buscar os filhos na escola. Ele se incomodou e começou a defender que família mesmo seria aquela formada por pai, mãe e filhos. Emendou dizendo que existem papéis próprios para homens e outros reservados às mulheres.
