O brasileiro paga impostos, espera atendimento no hospital, cobra uma escola melhor e enfrenta estradas que encarecem o que produz e consome. Enquanto isso, assiste à disputa pelo dinheiro que deveria ajudar a resolver esses problemas.
Quando o governo se afasta do cidadão
Na biologia, autofagia é o processo pelo qual uma célula degrada e recicla partes de si mesma. Na política, uso o termo como analogia para descrever um sistema que passa a consumir os recursos que deveriam servir à sociedade para sustentar a própria permanência no poder.
É nessa inversão que vejo a autofagia política: o poder se alimenta dos recursos públicos e das estruturas que deveria colocar a serviço da população, priorizando a manutenção de alianças, mandatos e privilégios.
A metáfora descreve uma engrenagem em que Executivo e Legislativo se alimentam mutuamente, usando cargos, verbas e influência para preservar alianças, mandatos e privilégios.
Em Do contrato social, Rousseau examinou o risco de a vontade particular do governo se voltar contra a soberania do povo. Sua reflexão ajuda a compreender como os interesses de quem administra o Estado podem se sobrepor aos daqueles que deveria representar.
Quando governar vira um negócio de permanência
Construir uma maioria no Congresso faz parte da democracia. O problema começa quando a negociação passa a distribuir vantagens em lugar de construir um projeto para o país.
Um cargo pode valer mais pelo apoio que compra do que pelo serviço que presta.
