A relativização do Holocausto não ameaça apenas a memória dos mortos. Ela corrói os critérios de verdade, responsabilidade e convivência que sustentam uma sociedade livre.
Em um vídeo que circulou nas redes sociais, uma menina entrevistada durante uma Bienal do Livro afirmou que O Diário de Anne Frank era um livro ruim porque Anne “se vitimizava demais”. A frase provocou indignação, e com razão.
Anne Frank não era uma personagem em busca de atenção. Era uma adolescente judia escondida dos nazistas, em um país ocupado, sob o risco permanente de ser presa e assassinada. Descoberta em 1944, ela morreu no campo de concentração de Bergen-Belsen, em 1945.
Mas a reação ao vídeo também merece uma reflexão mais ampla. O problema não é apenas uma opinião equivocada sobre um livro. O episódio revela como a relativização do Holocausto pode avançar, muitas vezes, não começando com a negação explícita dos campos de extermínio ou das câmaras de gás. Começa com a banalização da experiência das vítimas, com a inversão da responsabilidade e com a transformação do sofrimento documentado em uma espécie de exagero subjetivo.
É importante, contudo, não transformar a menina em alvo. Uma sociedade liberal deve defender o direito de alguém, inclusive de uma adolescente, fazer uma leitura ruim, superficial ou até ofensiva de uma obra. Liberdade de expressão não existe apenas para opiniões maduras, corretas ou socialmente aprovadas.
