Por André Naves*
É preciso humildade radical para escutar as urnas. Escutar, não ouvir. Enquanto ouvimos fisicamente, escutamos com a razão, com a sensibilidade. E a verdade é que não houve ambiguidade. As urnas falaram: foi uma vitória contundente, histórica, que desautoriza todas as certezas dos que se diziam donos da verdade. Quem apostou que o povo pensava como os editores dos jornais, como os formadores de opinião, como os gabinetes, perdeu.
É exatamente porque o resultado foi tão eloquente que ele exige de todos nós uma humildade radical. De todos. Não dos vencidos apenas. De todos. Dos que venceram e dos que perderam. Dos de direita e dos de esquerda. Dos mais conservadores e dos mais liberais. De todos nós, que pretendemos enxergar a sociedade e construí-la mais justa, mais livre, mais inclusiva. De todos nós, que nos preocupamos com Direitos Humanos, com inclusão social, com Justiça.
É que, no fim, a tentação dos vencedores é entender a vitória como mandato para tudo, como cheque em branco, como licença para governar só para os seus. E a tentação dos vencidos é a da negação e do preconceito: explicar o resultado chamando o povo de desinformado, de manipulado, de errado. As duas tentações nascem da mesma arrogância: a de que o povo deve ser conduzido, ensinado. Na verdade, o povo possui uma voz a ser escutada, e devemos estar atentos às lições dela.
