Todos os dias, depois de remar a primeira parte da jornada, Raphael Garcia seguia a mesma ordem dentro da cabine. Checava o GPS para ver quanto tinha avançado, almoçava por cerca de meia hora e dormia uma hora. Num desses dias, antes de deitar, voltou ao GPS sem motivo. Um navio vinha na mesma rota, a uns 4 metros da linha do barco a remo, pelos cálculos dele. Embarcações desse porte, segundo Garcia, têm cerca de 50 metros de largura e não enxergam um barco a remo a olho nu. Ele ligou para a tripulação, que desviou. “Se eu tivesse ido dormir diretamente, que era o que eu fazia antes, provavelmente não estaria aqui.”
Garcia não tem religião. Muita gente pergunta se ele viu Deus no mar, e a resposta é não. Para o episódio do navio, porém, ele fala em “inspiração divina” e não fecha a questão: “Nunca se sabe, né?”.
Em 22 de agosto, depois de 136 dias sozinho no Atlântico Sul, o paulistano atracou na Bahia Marina, em Salvador, a bordo do Sater, batizado em homenagem ao cantor Almir Sater. Tinha partido em 8 de abril de Lüderitz, na Namíbia, a mesma cidade de onde Amyr Klink saiu em 1984 para a travessia que virou o livro Cem Dias entre Céu e Mar. Klink o esperava no píer, o que lhe foi uma honra.
Garcia pagou tudo com o próprio dinheiro, não procurou patrocinador e passou os quatro anos de preparação longe da imprensa, pois a repercussão não era o foco. Para ele, o que decide uma viagem dessas acontece em terra. “Eu acho que a dificuldade não é nem remar", diz.
