A imaginação política é fértil como conto da carochinha e, pois, mentirosa. Na segunda-feira, determinados setores da cobertura política, sempre ocupados em encontrar um ramo de moderação no deserto do extremismo bolsonarista, decidiram que Flávio Bolsonaro, o candidato do PL à Presidência, amanhecera transformado em príncipe.
Revelava-se, ora vejam!, um articulador sutil, um estrategista surpreendente, uma verdadeira flor, para lembrar o Machado de Memórias Póstumas de Brás Cubas, nascida da “terra e do estrume” do reacionarismo mais abjeto; em suma, um herdeiro capaz de pacificar os ânimos e conduzir os seus ao poder por vias institucionais previsíveis. A propósito: o título do capítulo de onde extraio a imagem machadiana é “O menino é pai do homem”. Na terça-feira, contudo, o encanto se desfez e o que era doce havia se acabado.
Esse suposto príncipe era tratado como o líder capaz de sepultar, de uma vez por todas, o “velho regime” petista. Aludo, como se nota, ao avesso da história vivida para evidenciar a fantasia estúpida. Afinal, na genealogia das ideias, o herdeiro legítimo dos ideais igualitários é o PT, não o bolsonarismo. Alguns dos nossos bravos analistas inverteram os sinais: transformaram a esquerda numa espécie de aristocracia decadente e conferiram a Flávio a estatura de um Robespierre da reação. E, claro!, ele logo se encarregou de anunciar, a seu modo, o “terror revolucionário”.
