Aparentemente, Lula teria pela frente uma missão possível. Afinal, a vantagem de Flávio Bolsonaro no primeiro turno não chegou a dois pontos percentuais. Mas a pequena diferença na disputa presidencial esconde um resultado bem mais desfavorável ao governo. A essa pequena diferença soma-se uma derrota expressiva nas eleições para o Congresso e para os governos estaduais. O conjunto do resultado indica um desejo de mudança e um voto de protesto alimentado pela sensação de que a vida não vai bem, da porta de casa para dentro.
Foi a vida cotidiana, para usar uma ideia cara ao geógrafo Milton Santos, que pesou contra Lula, porque sua candidatura teve dificuldade de dialogar com o dia a dia dos brasileiros. As urnas reafirmaram um velho axioma: quando predomina a sensação de mal-estar, o eleitor tende a punir quem governa; quando prevalece a percepção de melhora, tende a recompensá-lo.
O recado foi particularmente claro entre os que “acordam cedo, pegam ônibus, abrem a lojinha, fazem bico, pagam boleto e procuram descobrir por que o dinheiro acaba antes do mês”, para usar uma frase de Renato Meirelles, autor de A Nova Classe Média. Não por acaso, a chamada classe C se inclinou fortemente para a oposição.
Endividamento, inadimplência e custo de vida, sobretudo o preço dos produtos nas gôndolas dos supermercados, ajudam a explicar um voto que adquiriu caráter quase plebiscitário sobre a maneira de governar de Lula e de seu partido.
