Em uma crônica publicada pela Revista Realidade, em junho de 1966, Nelson Rodrigues fez um apanhado sobre a história das Copas. Afinal, dentro de alguns dias iria começar mais uma edição de mundial, agora na Inglaterra. Ao citar a dolorida derrota da seleção para o Uruguai, em 16 de julho de 1950, no Maracanã, o cronista discorreu sobre a dor da torcida nacional e fez uma comparação inusitada: “Cada povo tem a sua irremediável catástrofe nacional, algo assim como uma Hiroshima. A nossa catástrofe, a nossa Hiroshima [cidade japonesa devastada pela bomba atômica, em 1945], foi a derrota frente ao Uruguai, em 1950. (…) Por que perdemos? Ainda hoje, fazemos a pergunta. (…) A saída do Maracanã, naquela tarde, oferecia um espetáculo dantesco. Milhares e milhares de automóveis, em gigantesca procissão, e nenhuma buzina. O já citado turista poderia fazer no seu caderninho esta anotação: ‘Esse deve ser o acompanhamento do enterro de Inês de Castro.’ (…).”
O texto de Nelson Rodrigues mostra o quanto o “Maracanazo”, como ficou conhecida a derrota dentro de casa, ainda impactava a torcida e a proporção de “tragédia” foi ganhando cada vez mais corpo. Já em uma crônica de 1969, publicada em O Globo, o jornalista resumiu: “(…) A humilhação de 50, jamais cicatrizada, ainda pinga sangue. (…).” As palavras dramáticas eram evocadas, mesmo tendo a seleção brasileira conquistado, na época, duas Copas (1958 e 1962) e venceria de novo no ano seguinte, em 1970, no México.
