Na sessão de 15 de setembro, ao repreender André Mendonça por ousar investigar os próprios pares, Gilmar Mendes sentenciou que “até a máfia tem ética”. Na hora, a frase soou como mais um rompante do decano. Hoje, a impressão é que fez as vezes de regimento interno. Diante de clamores inocentes por um “código de ética” para a Corte, Gilmar resolveu o problema.
Segundo apurou a Oeste, em matéria de Cristyan Costa, o ministro telefonou nas últimas semanas para o dono de uma grande emissora de televisão e para o publisher de um jornal de circulação nacional. Queria manifestar “insatisfação com editoriais e reportagens negativas ao STF”. As ligações vieram justamente quando a imprensa tradicional, enfim desperta, apertava os ministros por conta do escândalo do Banco Master e das recentes intervenções da Corte na Justiça Eleitoral. Procurado, Gilmar não respondeu. Em 25 de agosto, a mesma revista já havia revelado que ele e Flávio Dino conversaram com empresários próximos a Mendonça, relator do caso Master, para afastá-los do colega.
Um juiz que discorda de um editorial escreve um voto, concede uma entrevista, publica um artigo. Um juiz que liga para o patrão do editorialista faz outra coisa. Não precisa ameaçar ninguém, porque o cargo ameaça por ele. Quando o telefone toca e do outro lado está quem julgará amanhã as causas da empresa, o recado dispensa palavras. As redações chamam o resultado de autocensura. Os velhos padrinhos sicilianos tinham nome mais exato: omertà.
