Na quinta-feira 1º de outubro, em entrevista chapa-branca ao Flow Podcast após fugir do debate-que-não-houve na TV Globo, o Descondenado-em-chefe anunciou que discute com o Banco Central uma forma de proibir os bancos de conceder mais de um cartão de crédito por pessoa. A justificativa veio em tom de sermão: “Não é possível permitir a sociedade se endividar de forma irresponsável”. O drama é real. Juros de 449,4% ao ano, 83,9 milhões de brasileiros com o nome sujo, famílias endividadas em proporção recorde. Mas o diagnóstico é só o pretexto. É o remédio que revela o médico.
Note-se, primeiro, a gramática. O sujeito não fala em proteger o cidadão, e sim em “permitir” que a sociedade faça algo. O verbo diz tudo. Num regime de liberdade, o adulto decide e responde pelo que decide. No paternalismo socialista, o adulto é rebaixado à condição de menor tutelado, e o Estado, esse devedor contumaz que trata o próprio orçamento como cartão sem limite, arroga-se a função de pai severo. Afinal, moralizar o crédito alheio é sempre mais confortável do que moralizar a própria despesa.
E começa assim. Depois, surge a caderneta de racionamento, um frango semanal por família. Depois, o Estado decide quantos filhos cabem em cada lar. Depois, restringe a circulação, e o passaporte passa a valer por zona. Quem leu a história do século 20 e conhece a cultura política do lulopetismo sabe que não há aqui exagero retórico.
