Amigos e familiares de estudantes de medicina costumam perceber uma mudança radical na rotina quando eles entram na faculdade. Ir à academia é uma das primeiras coisas a sair da agenda. Depois vêm os hobbies e até os fins de semana livres. Mas falar disso com os colegas pode soar quase como uma confissão de fraqueza.
Um estudo publicado na Brazilian Journal of Psychiatry ajuda a dimensionar o que pode estar por trás dessa rotina. Entre 1.026 estudantes de 74 faculdades de medicina, públicas e privadas, 66% apresentaram sintomas depressivos de moderados a graves, enquanto 50,5% relataram sintomas de ansiedade no mesmo nível.
Os números impressionam, dois em cada três alunos estão bem acima do percentual de 27,2% estimado em uma revisão internacional. Em entrevista à CNN Brasil, a primeira autora do trabalho, Clarissa Garcia Custódio, pondera que a comparação ajuda a contextualizar o achado, mas não permite medir com precisão o tamanho dessa diferença.
“Podemos dizer que a proporção observada em nossa amostra foi maior do que a descrita em meta-análises internacionais, mas não podemos interpretar essa diferença como uma medida exata de quanto a saúde mental dos estudantes brasileiros é pior”, afirma a médica. Os estudos usaram instrumentos, pontos de corte e períodos de coleta diferentes.
Há uma ressalva ainda mais decisiva: o questionário PHQ-9, usado na pesquisa, rastreia sintomas e não fecha diagnóstico.
