Neste sábado, 26, a Praça da Concórdia viu ajoelhar-se diante de um altar a mesma cidade que, em 1793, ali se aglomerou para assistir à guilhotina. Naquele tempo, a praça chamava-se Praça da Revolução, e a lâmina que decapitou o rei cristianíssimo era o sacramento da nova fé. Meses depois, na Notre-Dame profanada, os jacobinos entronizariam a Deusa Razão.
Agora, centenas de milhares de fiéis ocupavam três quilômetros de Paris, do Arco do Triunfo à Concórdia, para receber o Papa Leão XIV. No lugar do cadafalso, 2,4 mil sacerdotes, cem bispos e 1,3 mil cantores celebraram uma missa dedicada não à Razão divinizada, mas à Virgem Maria, padroeira da França.
A cena desmente três séculos de catequese secularista. Foi Rousseau quem, no Contrato Social, formulou o credo da nova fé: uma “religião civil” cujos dogmas seriam fixados pelo soberano e cujos hereges poderiam ser banidos ou punidos com a morte.
A Revolução levou o programa a sério. Vieram o culto da Razão, depois o do Ser Supremo de Robespierre e, por fim, o laicismo republicano, versão burocrática e envergonhada do mesmo impulso. Eric Voegelin e outros chamaram isso de “religião política”: a redenção transferida do Céu para o Estado.
Ocorre que não há vazio religioso.
