O vinho brasileiro está vivendo um momento particularmente interessante: ao lado das grandes empresas, responsáveis por volumes expressivos e por uma presença cada vez maior nos mercados nacional e internacional, floresce uma constelação de pequenas vinícolas artesanais e boutiques que talvez desempenhem papel ainda mais importante na construção daquilo que poderíamos chamar de “gosto nacional”. São empreendimentos que, pela escala reduzida, podem experimentar, arriscar, recuperar castas, explorar terroirs pouco conhecidos e elaborar vinhos que não precisam necessariamente obedecer às fórmulas consagradas pelo mercado. São, em muitos casos, verdadeiros laboratórios de identidade.
A história do vinho brasileiro, aliás, começou justamente em uma dimensão doméstica e artesanal. Embora a videira tenha chegado ao território brasileiro no século XVI, foi sobretudo a partir da imigração italiana para o Rio Grande do Sul, iniciada em 1875, que a vitivinicultura adquiriu importância econômica. As primeiras gerações de imigrantes produziram vinho em pequenas cantinas familiares, inicialmente com variedades americanas mais resistentes às condições brasileiras. Durante décadas, esse vinho simples, cotidiano, ligado à mesa e à vida rural, ajudou a formar o paladar de gerações de brasileiros. A posterior introdução e expansão das castas europeias e a modernização tecnológica, particularmente a partir dos anos 1970, modificaram profundamente esse cenário.
