Marcos Degaut*
Em Silver Blaze, Sherlock Holmes resolve o mistério a partir de um fato que ninguém mais havia notado: o cão que não latiu durante a noite. No conto de Arthur Conan Doyle, a ausência de latidos conduziu Holmes a uma resposta. No Itamaraty lulopetista chefiado por Mauro Vieira, o silêncio dos arquivos conduz a perguntas: quais decisões foram tomadas, por que se impôs sigilo e a quem elas beneficiaram? O que mais revela o Ministério das Relações Exteriores (MRE) de Vieira não é o que ele proclama nas tribunas multilaterais, mas o que ele trancou em cofres, com carimbos de reservado ou secreto, prazos de cinco a quinze anos e justificativas genéricas repetidas como ladainha.
O sigilo, evidentemente, é instrumento legítimo e indispensável da diplomacia. Estados não negociam interesses sensíveis sob holofotes, nem expõem informações cuja publicidade possa comprometer negociações, fontes ou relações exteriores. O problema começa quando a excepcionalidade se banaliza; quando não se consegue distinguir com clareza o que está sendo protegido: o interesse permanente do Estado ou a conveniência circunstancial de quem o governa. É nessa fronteira que a diplomacia deixa de proteger o País do escrutínio externo e corre o risco de proteger o governo do escrutínio dos próprios brasileiros.
