Durante meses, a vida de Roseana Sarney teve uma rotina que ninguém deseja: exame, consulta, quimioterapia, hospital. Depois vinha a espera pelo médico, pelo resultado, pelo corpo reagir, pelo mal-estar passar. Os outros planos ficaram para depois.
Lembro quando ela apareceu de cabeça raspada. Sempre foi uma mulher muito fotografada. Governadora, deputada, candidata, filha de José Sarney, mãe da Rafaela, a gente se acostumou a vê-la arrumada, cercada de gente, falando, sorrindo. Naquela foto era diferente. Era uma mulher tratando um câncer.
Quem já teve alguém doente dentro de casa sabe que a doença não fica só no paciente. A casa muda junto: muda a comida, o horário, o assunto. Todo mundo começa a prestar atenção demais numa expressão, numa resposta do médico, no resultado de um exame, ao mesmo tempo em que tenta não demonstrar preocupação.
Ela mostrou uma parte disso. Falou da fé, contou sobre o tratamento, dividiu alguns momentos difíceis. Em outros, ficou recolhida. Teve complicações pelo caminho. Foram meses em que a saúde veio antes de todo o resto.
Enquanto acompanhava as notícias, pensei muitas vezes nas outras mulheres que faziam o mesmo tratamento sem aparecer em lugar nenhum. Uma mulher saindo de Presidente Dutra ainda escuro, outra vindo de Pinheiro, Bacabal ou Caxias. Horas de estrada com uma pasta de exames no colo e alguém ao lado perguntando se está tudo bem.
Às vezes não está. E não precisa estar.
