Entre 1968 e 1971, sob a vigilância de uma agência estatal formalmente laica e a pressão geopolítica contra os soviéticos, tripulantes do programa Apollo protagonizaram episódios de devoção religiosa a centenas de milhares de quilômetros da Terra.
Longe de representar uma política institucional da NASA, esses gestos partiram de convicções pessoais dos próprios astronautas e do respaldo de grupos cristãos que operavam nos bastidores do Centro Espacial de Houston.
O momento de maior repercussão pública aconteceu na véspera do Natal de 1968, a bordo da Apollo 8.
Frank Borman, Jim Lovell e William Anders, os primeiros homens a orbitar a Lua, abriram uma transmissão de televisão mostrando a superfície crivada de crateras em contraste com a Terra ao fundo.
Os três dividiram a leitura dos dez versículos iniciais de Gênesis. Borman fechou o contato com votos que entraram para a história: “Boa noite, boa sorte, um Feliz Natal e que Deus abençoe a todos vocês, todos vocês na boa Terra.”
A reação em solo foi imediata e gerou um imbróglio judicial. A ativista ateia Madalyn Murray O’Hair acionou a Suprema Corte americana contra a NASA, alegando violação do princípio constitucional de separação entre Igreja e Estado.
Embora a Justiça tenha arquivado o processo, a cúpula da agência recomendou discrição redobrada para evitar celebrações religiosas em transmissões abertas nas missões seguintes.
O efeito prático dessa cautela ficou evidente já no pouso da Apollo 11, em julho de 1969.
