O presidente Lula afirmou, durante um ato de campanha em Florianópolis, que, se a relação com o agronegócio dependesse do dinheiro liberado pelo governo, os produtores deveriam “não só votar, mas se ajoelhar” diante dele.
Considero essa declaração lamentável. Não porque o presidente não possa defender as ações de seu governo. Pode e deve. O problema é tratar uma política pública como concessão pessoal, e o produtor como alguém que recebeu um favor. Em uma democracia, ninguém deve se ajoelhar diante de governante algum.
O Plano Safra não pertence ao presidente da República. É uma política de Estado, construída ao longo de décadas e financiada por diferentes fontes.
Para a safra 2026/2027, foram anunciados mais de R$ 610 bilhões: R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial e R$ 85,2 bilhões para o Pronaf. Mas é preciso entender esses números.
Esse valor não corresponde integralmente a dinheiro retirado do Tesouro e entregue aos produtores. Grande parte vem da poupança rural, dos depósitos obrigatórios, dos bancos, dos fundos constitucionais e das Letras de Crédito do Agronegócio.
O produtor toma o financiamento, paga juros, oferece garantias e devolve cada centavo. Mesmo quando existe equalização, o governo cobre apenas parte da diferença entre a taxa oferecida ao produtor e o custo do dinheiro.
Crédito rural não é doação. Muito menos favor pessoal.
