Quando alguém diz que uma bebida tem terroir, é tentador imaginar que o solo deixou uma marca direta naquele sabor. Essa imagem funciona perfeitamente para os vinhos (especialmente os europeus, que inventaram a definição), mas costuma cair mal para os destilados. A cachaça, porém, é uma bebida que oferece, entre a cana e o copo, uma trajetória de fermentação, calor, destilação, cortes e, em alguns casos, envelhecimento.
O conceito de terroir ficou conhecido mundialmente por causa do vinho, mas nunca se limitou apenas à composição do terreno onde se localizam os vinhedos. A definição adotada pela Organização Internacional da Vinha e do Vinho inclui o conhecimento coletivo sobre as relações entre ambiente físico, os seres vivos e as práticas produtivas. O terroir, portanto, nasce da interação entre natureza, técnica e vida social.
Levar essa ideia para a cachaça exige cuidado. Não basta trocar a uva pela cana e repetir o modelo dos vinhos europeus. A bebida brasileira possui outra matéria-prima, outra história e uma cadeia de transformação própria. O desafio é descobrir em quais etapas a origem permanece reconhecível, onde é modificada e quando pode ser apagada.
O terroir não cabe numa amostra de solo
Clima, relevo, água e características do solo influenciam o cultivo da cana. Nenhum desses fatores, isoladamente, explica a bebida.
Cachaça pode ter "terroir"? Ciência por trás da bebida indica que sim
