Carta ao Leitor da edição 491, de setembro de 2026
Em japonês, shokunin significa “artesão”. Mas a palavra carrega um significado maior – uma filosofia.
Shokunin é aquele que dedica a vida a aperfeiçoar o que produz. Conhece cada minúcia da sua matéria-prima, nutre um respeito profundo pela rotina e, ano após ano, aprimora a sua técnica.
Ouvi pela primeira vez essa palavra no documentário O Sushi dos Sonhos de Jiro (2011), sobre a vida do chef Jiro Oto. Aos 85 anos, ele mantinha a mesma rotina de décadas: acordava cedo, pegava o trem e ia para o seu restaurante de dez lugares, que fica numa estação do metrô de Tóquio.
Ali, uma reserva custava, na época, a partir de R$ 1.500 (hoje, beira os R$ 3 mil). Jiro serve apenas sushi, peça por peça, de acordo com o que estiver mais fresco no dia. A refeição dura menos de uma hora.
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O chef e sua equipe fazem parecer uma tarefa simples. Mas ele exige um treinamento de dez anos para trabalhar ali. A busca pela excelência rendeu três estrelas Michelin, o Santo Graal da alta gastronomia.
Aos 100 anos, Jiro segue trabalhando. É um shokunin apaixonado, que acorda no meio da noite pensando no sushi perfeito e é capaz de passar 50 minutos massageando um polvo antes de prepará-lo. “Dá mais trabalho, mas fica melhor.”
O perfeccionismo é ardiloso. Em excesso, pode estressar você (e quem estiver à sua volta). Mas dá para operar em uma altitude segura. Não existe talento que dê frutos sem o mínimo de dedicação.
