A eleição presidencial caminha para um terreno conhecido, mas ainda mais perigoso: o eleitor poderá escolher não o candidato em quem mais confia, mas aquele que considera menos arriscado.
O dado mais recente do Datafolha resume esse ambiente. Lula e Flávio Bolsonaro aparecem com a mesma rejeição: 47% dos entrevistados dizem que não votariam de maneira alguma em cada um deles.
É um empate impressionante. Mas que pode enganar. Os números são iguais. As razões da rejeição, não.
A ciência política chama esse comportamento de partidarismo negativo. O eleitor pode não admirar profundamente um candidato, mas sabe com clareza quem deseja derrotar. É o voto construído pelo medo, pela raiva ou pela desconfiança.
No Brasil, o antipetismo e o anti bolsonarismo tornaram-se identidades políticas. Há pessoas que não se consideram de direita, mas votam contra o PT. Outras não são propriamente de esquerda, mas escolhem Lula para impedir a volta da família Bolsonaro ao poder.
Isso ajuda a explicar um aparente paradoxo. Levantamento do Datafolha mostrou que parte dos eleitores de Lula está situada na direita ou na centro-direita. Da mesma forma, existem eleitores de Flávio classificados na esquerda ou na centro-esquerda.
O eleitor real não cabe perfeitamente nas divisões ideológicas. Seu voto também passa pela renda, pela religião, pela segurança, pela família, pelo emprego e pelas experiências acumuladas ao longo da vida.
