A sessão do Supremo Tribunal Federal (STF), na última terça-feira, figurará como um marco desconcertante na trajetória recente do Judiciário brasileiro. Em meio ao acirramento dos debates no plenário, a invocação do termo omertà, o histórico código de silêncio das organizações mafiosas, pelo ministro Gilmar Mendes expôs uma fissura preocupante na dinâmica da Suprema Corte. Quando a exigência de espírito de corpo e de blindagem institucional é externada por meio de analogias dessa natureza, abre-se uma crise de credibilidade sem precedentes, na qual a transparência do debate público parece sucumbir à pressão pelo alinhamento corporativo.
Nesse embate, a conduta de André Mendonça sobressaiu pela sobriedade. Distante de confrontos ruidosos, sua posição pautou-se pela observância do devido processo legal e pela defesa do debate aberto, fundamentando-se nas normas institucionais, em vez de ceder aos constrangimentos de uma pretensa lealdade interna. Em contrapartida, a articulação observada no grupo alinhado ao ministro Alexandre de Moraes, exemplificada pelo pedido de vista do ministro Flávio Dino, soou, para ampla parcela da sociedade, como o uso tático de expedientes regimentais para postergar deliberações incômodas e arrefecer desgastes políticos. A percepção de que a chicana jurídica é empregada para proteger determinados polos do próprio tribunal corrói a confiança republicana.
