Ronaldo Laranjeira*
Dostoiévski escreveu sobre homens destruídos pela culpa. O Brasil do século 21 parece viver um fenômeno oposto: homens fortalecidos pela ausência dela.
Em Crime e Castigo, Raskólnikov acredita pertencer a uma categoria de indivíduos extraordinários, autorizados a ultrapassar os limites da lei em nome de um suposto bem maior. Depois do assassinato, porém, descobre que o verdadeiro castigo começa antes da sentença judicial. A culpa corrói sua consciência, rompe seus vínculos humanos e torna impossível continuar vivendo como se nada tivesse acontecido. Para Dostoiévski, a responsabilidade moral sobrevive a qualquer tentativa de justificar o mal.
O Brasil parece caminhar na direção inversa. Não porque deixe de prender, mas porque a punição frequentemente alcança apenas os elos mais frágeis da cadeia criminosa, enquanto as estruturas econômicas, financeiras e políticas que sustentam o crime organizado permanecem em funcionamento. O resultado é a crescente percepção de que o crime pode produzir riqueza, prestígio, influência e poder.
Os indicadores de violência mostram avanços importantes, mas ainda insuficientes. O país continua registrando dezenas de milhares de homicídios por ano, além de milhares de mortes violentas cuja causa sequer é corretamente identificada. A redução recente demonstra que políticas públicas baseadas em inteligência, integração e gestão podem funcionar.
