André Burger*
Para cada otário que surge, um malandro surge também. Da mesma forma, não é possível termos uma sociedade apenas de malandros ou de otários.
Esta é uma explicação para boa parte da história do Rio de Janeiro (RJ). Desde cedo, estabeleceu-se, na região, uma espécie de equilíbrio natural entre os que levam vantagem e os que são enganados. Afinal, não existe malandro autossuficiente. Todo pilantra precisa de alguém que pague a conta. O vigarista necessita do crédulo, o esperto, do incauto, o salafrário, do mané. São relações simbióticas: um não sobrevive sem o outro.
O RJ se estabeleceu assim desde suas origens. Para cada europeu que trouxe uma miçanga, houve um índio disposto a trocá-la por algo que o recém-chegado considerava mais valioso. Saíram as miçangas, mudaram os personagens e os métodos, mas o princípio se desenvolveu na região.
A malandragem se incorporou ao folclore carioca. O malandro é esperto, criativo, irreverente, contorna regras, conhece atalhos e, sobretudo, não gosta de ser confundido com um otário. Ser enganado é tolerável, mas ser reconhecido como alguém que foi enganado é humilhante.
Durante muito tempo, parece ter existido um equilíbrio entre espertos e incautos, salafrários e manés. A sociedade funcionava. O problema começou quando todos os cariocas resolveram ser malandros.
A valorização cultural da esperteza produziu o que qualquer economista poderia prever: excesso de oferta.
