Tenho a profunda convicção de que o homem comum possui uma qualidade que a academia e a mídia têm se esforçado para invalidar: a percepção sã e inata da verdade.
Converse com o seu João do bar do Dito, a Creuza, costureira de Osasco, ou a dona Sônia, cuidadora de idosos em Santana de Parnaíba, e todos eles vão ser crus, diretos e essencialmente corretos sobre temas complexos como o aborto, a teoria de gênero, a maioridade penal ou o foro privilegiado. Não que a realidade seja simplória e fácil, que tudo se explique por uma observação de senso comum e sem aprofundamento. Eu sei que, muito possivelmente, o seu Geraldo, marceneiro, não conseguiria explicar como se deu a construção química e física de um carvalho-alvarinho, nem como se dá o ciclo das gimnospermas; porém, é certo que ele saberá construir uma cadeira de eucalipto ou uma cômoda de tauari, e um móvel também é um fato. Da mesma maneira, uma parteira anciã do Cariri não sabe o que é formação do blastocisto ou etapa da organogênese, porém sabe que, inevitavelmente, se nasce homem ou mulher - ainda que intelectuais do porte de Judith Butler e Simone de Beauvoir não concordem.
O que eu quero dizer é que, na modernidade, tornou-se comum utilizar-se de muita informação, emplastros intelectualoides, microscópios ideológicos e verborragias retóricas para transformar fatos em mentiras; e mentiras, em fatos.
