Outro dia, dirigindo por São Paulo, percebi que precisava escolher para onde olhar. Não encontrava a esquina.
Vou descrever a cena: o semáforo estava adiante, um idoso de bengala aproximava-se da faixa de pedestres, uma motocicleta surgia pelo retrovisor e, à direita, uma sequência de bandeiras balançava junto à calçada, rostos, números, cores e nomes sacudidos pelo vento que anunciava a tempestade.
Eu ouvia música retrô.
Todas pediam a mesma coisa: preste atenção e olhe para mim! Ao menos é o que eu senti.
Sabem para que serve a publicidade? Seja para vender um refrigerante ou um automóvel, divulgar um serviço, informar temperatura, horário e condições atmosféricas ou apresentar um candidato, sua primeira tarefa é capturar nossa atenção. O problema começa quando instalamos tantos apelos visuais justamente onde o olhar precisa cumprir outra função.
No trânsito, atenção não é mercadoria, trata-se de questão de segurança humana.
Quem dirige precisa ler placas, perceber semáforos, antecipar o movimento de pedestres e ciclistas, acompanhar motocicletas e interpretar, em segundos, uma sucessão de acontecimentos que podem gerar um acidente. Quem caminha também lê a cidade: procura o caminho, observa o piso, identifica obstáculos, aproxima-se de uma travessia e precisa perceber os veículos.
Por que, então, introduzir nesse mesmo campo visual dezenas de objetos criados deliberadamente para desviar nossa atenção?
