Encontrei um vídeo no Instagram enquanto cumpria a difícil obrigação contemporânea de não fazer nada. Um piloto sobrevoava a imensa Amazônia quando a câmera encontrou uma vila muito isolada, “no meio do nada ou do tudo”, como li nos comentários.
Voltei o vídeo algumas vezes, intrigado. Essa introspecção pode parecer piegas, mas, para mim, não foi. Uma comunidade inteira reduzida a alguns segundos de surpresa.
De plano, associei aquela aldeia ao passado, como se a ausência de prédios, automóveis e aparelhos eletrônicos significasse viver em uma etapa anterior da humanidade. Mas aquelas pessoas eram tão contemporâneas quanto eu. A diferença estava na ideia de que o nosso modelo de vida transformou a tecnologia em medida universal de desenvolvimento.
Em Aceleração, o sociólogo alemão Hartmut Rosa analisa uma contradição: as tecnologias aumentaram a velocidade dos transportes, da comunicação e da produção, mas não nos deram mais tempo. Ao contrário, passaram a exigir que realizássemos um número cada vez maior de tarefas no mesmo intervalo.
Lembrei-me de um vídeo do jornalista Pedro Andrade, publicado em seu perfil nas redes, em que ele diz que o tempo não volta e que talvez seja o recurso mais caro da vida. A frase parece evidente, mas nossa rotina funciona como se fosse falsa. Economizamos dinheiro, acumulamos objetos e planejamos o futuro enquanto entregamos horas inteiras a tarefas que nem sequer sabemos por que aceitamos cumprir.
