A cena se repete no consultório. A paciente senta, abre o celular e vira a tela para mim. É uma reportagem sobre uma terapia que teria curado o lúpus na Alemanha. A pergunta vem sempre igual: “doutor, isso serve para mim?” A resposta honesta quase nunca é sim. E o motivo de não ser sim diz mais sobre o futuro do seu tratamento do que a manchete.
O que a terapia celular faz de diferente
Todo tratamento que usamos hoje em lúpus, esclerose sistêmica ou miopatia inflamatória tem a mesma lógica: segurar a doença enquanto o remédio está sendo tomado. Se o paciente para, a doença tende a voltar.
Boa parte do problema vem dos linfócitos B, células de defesa que passaram a produzir anticorpos contra o próprio corpo. Já existem medicamentos que atacam essas células, como o rituximabe. Eles retiram os linfócitos B principalmente da circulação sanguínea. Nos tecidos, onde parte dessas células se esconde, a limpeza é incompleta. Sobra reservatório. O reservatório repovoa. A doença retorna.
A terapia CAR-T parte de outro caminho. Coletamos os linfócitos T do próprio paciente e, em laboratório, instalamos neles um receptor programado para reconhecer o linfócito B onde quer que ele esteja. Devolvemos essas células em uma única infusão. Elas se multiplicam dentro do corpo, entram nos tecidos, fazem a limpeza e depois desaparecem. O organismo, então, volta a produzir linfócitos B novos, a partir da medula óssea, sem a memória autoimune que existia antes.
