Em 17 de setembro, apenas 17 dias antes do primeiro turno, o governo federal publicou o Decreto nº 13.120, que corrigiu os valores do Bolsa Família pela inflação acumulada entre março de 2023 e agosto de 2026. Formalmente, trata-se de uma recomposição monetária, calculada a partir de um índice objetivo e prevista na legislação do próprio programa. O problema está menos na justificativa apresentada pelo governo do que no momento escolhido para transformar essa recomposição em realidade. Quando uma medida capaz de alcançar milhões de eleitores é anunciada e produz efeitos financeiros justamente na reta final de uma eleição, é difícil ignorar a dimensão política de sua oportunidade.
A questão, portanto, não é discutir a importância do Bolsa Família nem negar ao governo a possibilidade de corrigir benefícios corroídos pela inflação. O ponto é outro: saber se a aparência de mera recomposição econômica é suficiente para afastar a análise sobre a finalidade e os efeitos eleitorais da medida. A proximidade temporal não é um detalhe irrelevante. O reajuste começa a produzir efeitos financeiros em outubro, e os novos valores chegam aos beneficiários a partir de 19 de outubro, apenas seis dias antes de um eventual segundo turno. Sob a perspectiva eleitoral, essa coincidência entre a concessão de um benefício de grande alcance social e o período mais sensível da disputa não pode ser tratada como mera casualidade administrativa sem uma análise mais rigorosa.
