Visite a página de SarneyO mês de setembro é para mim especial por um motivo aparentemente menor: é o mês de aniversário das duas cidades que marcaram, mais que qualquer outra, os meus primeiros dias: Pinheiro, onde nasci, e São Luís, onde me tornei gente e que conquistou o meu coração.
Minhas lembranças de Pinheiro são envoltas numa certa neblina, mas nela há focos de nitidez, às vezes não em coisas que lembre com meus olhos, mas com um conhecimento tão remoto que dificilmente posso distinguir dos outros: a chuva que caía, Mãe Benta, que tinha sido escrava, a parteira da cidade, e ficou ao lado de minha Mãe e minha Avó durante o trabalho de parto, a ida de meu Pai de madrugada à Farmácia do Zé Alvim para obter um remédio, injeção de pitruitina, para restabelecer as contrações do parto, a promessa de meu Pai de que eu me chamaria José de Ribamar, o nascer empelicado, as joias colocadas na bacia para o banho do recém-nascido.
Minha lembrança real é meio confusa. Eu devia ter uns três anos, passa uma fileira de índios com passos cadenciados diante da casa. Não há rostos, as figuras deslizam. Depois minha Mãe ajudou-me a entender: eram índios canelas, que vinham de quando em quando adquirir mantimentos, trocando peles de animais selvagens por pólvora, açúcar, farinha e fumo. Sua aldeia estava vinte léguas distantes, já na selva do rio Tury. Mas a cidade se fechava, no medo de um passado de lutas e mortes. Assim minha primeira memória é do medo.
