Nomen est omen, “o nome é presságio”, diz o velho provérbio latino. Pois o sobrenome de Dario Amodei, co-fundador e CEO da Anthropic, soa como um eco do latim amo Dei, “eu amo a Deus”, ironia que não escapa a quem tenha acompanhado o espetáculo recente do homem que construiu uma das máquinas de linguagem mais avançadas do planeta publicando, agora, um ensaio pedindo que se pise no freio diante da própria criatura. Depois de dias turbulentos, com um ex-pesquisador seu declarando publicamente que a inteligência artificial (IA) poderia significar o fim da espécie dentro de uma década, Amodei escreveu que “devemos pautar o ritmo" do progresso técnico. Terceiros avaliadores, regulação, acordos globais. A receita é: contenha o monstro que você mesmo criou, mas sem nunca abrir mão da liderança na corrida.
Exilado no Brasil em 1944, e escrevendo sob o eco ainda quente de Hiroshima, George Bernanos havia identificado um mecanismo similar. Não era o robô, como objeto, que o assustava. Era a contemplação de uma civilização que passava a se organizar em torno da técnica até esquecer daquilo que lhe era anterior: a pessoa, a alma, a liberdade que não se mede em eficiência. Para Bernanos, capitalismo liberal e totalitarismo comungavam do mesmo pecado: subordinar o homem ao sistema e, irrefletidamente, chamar essa subordinação de progresso.
Oitenta anos depois, trocamos a bomba atômica pelo modelo de linguagem, e o vocabulário mudou de “energia nuclear” para “alinhamento”.
