Por Bernardo Ambrozio*
Existe uma covardia semântica travando o debate público brasileiro. Há décadas, analistas, formuladores de políticas e porta-vozes institucionais insistem em chamar a explosão do crime organizado de "crise de segurança pública". É um eufemismo confortável, mas que já não dá conta do problema. Não se trata mais de criminalidade violenta comum nem de desvios. Quando o crime organizado passa a ditar regras da economia formal, define fronteiras dentro das cidades, decide quem entra e sai de bairros inteiros, financia campanhas e corrói por dentro as engrenagens do Estado, o nome certo para isso já não é "criminalidade". É Narcoestado.
Boa parte da resistência em admitir isso vem de uma ideia equivocada: a de que um Narcoestado precisaria do colapso total das instituições democráticas, de um cartel sentado literalmente na cadeira presidencial, tipo cena de filme, ou de uma declaração formal do próprio Estado. A experiência latino-americana mostra o contrário. O Narcoestado moderno é híbrido, funcional, simbiótico. Não precisa fechar o Congresso nem desmontar a polícia, por exemplo. Basta capturá-los por dentro, o suficiente pra garantir lucro e blindar as lideranças.
Vale um parêntese antes de seguir: não existe um único tratado com "os quatro critérios do Narcoestado" batizado e citado por todo mundo.
