Existe uma tentação, ao se lidar com ficção científica contemporânea, de reduzi-la a um mero exercício técnico, engenharia narrativa disfarçada de literatura, onde a emoção humana cede lugar a equações e protocolos de sobrevivência. Devoradores de Estrelas, de Andy Weir, resiste a essa tentação, e é justamente aí que reside sua força. Não que o autor abra mão de um tecnicismo para explicar os meandros da física espacial e da química básica dos seres, mas o faz sem ser maçante, ao menos. Andy Weir constrói uma fábula sobre extinção e salvação que, sob a superfície do rigor científico, esconde uma defesa quase clássica de valores que a cultura contemporânea insiste em tratar como ultrapassados, o sacrifício individual, a competência como critério de valor e a lealdade que nasce do mérito, não da imposição.
O protagonista, Ryland Grace, acorda sem memória, isolado, e é sobre essa amnésia que o romance ergue sua tese mais interessante: a identidade do homem não está em sua biografia, em suas etiquetas sociais ou em sua origem, mas em sua capacidade de agir quando confrontado com a necessidade. Weir despe seu personagem de tudo, nome, passado, vínculos, e o que resta é o essencial: um homem que pensa, que resolve, que assume o peso de salvar não apenas a si mesmo, mas espécies inteiras. Diante disso, o que salva a humanidade, no livro, não é a representatividade, a política, é a excelência técnica e a escolha moral de seus personagens.
