A quem recebeu meu voto, encontrei seu sorriso no meio da calçada. Estava preso a um totem disputando espaço com postes, lixeiras, mesas, placas, bicicletas e outras tralhas autorizadas a permanecer onde o pedestre deveria passar. Desviei de você. Apesar da idade, ainda consigo. Não sei por quanto tempo. Você parecia descansado. Mais jovem, talvez. Quatro anos fizeram muito bem à sua imagem.
É muito provável que você não se lembre de mim. É compreensível. Na eleição passada, apertou tantas mãos, abraçou tantas senhoras, carregou tantas crianças no colo e ouviu um mundaréu de histórias que seria impossível guardar todos os rostos e falas, foi um verão tórrido, lembro-me até do suor na sua mão colando na minha. Eu, ao contrário, lembro-me de você.
Votei em você.
Depois, procurei-o algumas vezes. Não exatamente o senhor da fotografia, sempre disponível, mas aquele que deveria existir atrás da porta de um gabinete que, por sinal, insistia em manter-se fechada. A promessa ficou no discurso da campanha.
Esta semana, ao esbarrar novamente em seu sorriso, resolvi puxar-lhe a capivara. Não se ofenda com a expressão. Não o segui. Não esperei diante de sua casa nem vasculhei suas gavetas. Fiz algo muito mais inquietante: busquei informações públicas. Seu mandato estava cheio de números. Encontrei presenças, emendas, projetos, discursos e votações. Li tudo o que consegui.
