Diante de certos fatos da atualidade, questiono-me se não vivemos no Brasil uma repetição infindável da história sob um determinado aspecto. Avançamos positivamente em diversas áreas: trocamos a máquina de datilografar pelo computador; desenvolvemos vacinas para males que outrora matavam aos milhares; universalizamos o acesso à energia elétrica e substituímos as carruagens por aviões e automóveis. Além disso, houve um avanço civilizatório: condutas racistas e transfóbicas já não são aceitas com a naturalidade de antes.
Contudo, algo parece resistir ao tempo neste país: a dificuldade em processar e punir indivíduos que ocupam as camadas superiores da sociedade.
O romance Noite sobre Alcântara, de Josué Montello, ilustra bem essa estrutura. A obra, protagonizada pelo Major Natalino (filho do Visconde e da Viscondessa de Itacolomi) e Maria Olívia (filha do Barão e da Baronesa de Grajaú), retrata a opulência e o ocaso da histórica cidade maranhense. A trama se desenrola entre o final do Segundo Império e o alvorecer da República, período em que Alcântara começa a ruir e as famílias nobres, embora endividadas, migram para São Luís.
O ponto que me reforça a ideia de uma "história cíclica" é o relato de um fato verídico presente na obra: o assassinato de dois escravizados por Dona Anna Rosa Viana Ribeiro, esposa do respeitável médico Carlos Augusto Ribeiro do Nascimento.
